
Reportagens
Pai e mãe de santo criticam projeto que veta sacrifícios
Francisco Oliveira, conhecido como pai Chico, pratica o Candomblé
Praticantes do candomblé criticaram nesta segunda-feira, dia 6, projeto do vereador Carlão dos Santos (SD) que proíbe sacrifício de animais em rituais religiosos em Rio Preto. A polêmica proposta do vereador, que é um dos parlamentares evangélicos da Câmara, provocou uma série de discussões e debates sobre o tema, tanto em defesa dos animais, quanto contra o vereador e favorável aos rituais.
Carlão defende, em sua justificativa, que lei ambiental trata como crime morte de animais. Na mesma justificativa, o vereador cita a Constituição, que em seu artigo 225, estabelece "o dever de proteger a fauna e a flora, vedadas as práticas que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais à crueldade."
O sacrifício de animais em rituais religiosos tem amparo no artigo 5º da Constituição. "É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias". O projeto de Carlão será lido na sessão de hoje da Câmara, mas já recebe críticas.
"O sacrifício de animais acontece muito raramente, em práticas de iniciação. E não é nada de jogar animal em encruzilhada, que é uma maluquice. Existe algo assim em magia negra também. No candomblé, o sacrifício é como oferenda aos orixás.", afirmou Francisco Oliveira, de 57 anos, conhecido como pai Chico. Ele tem uma casa de candomblé no Jardim Marajó, a Ile Asè Ifacoline, e cita que os eventos de sacrifício são respaldados pela Constituição.
"A Constituição está ao nosso lado nesse aspecto. É uma prática muito antiga, não foi inventada por nós", disse o pai de santo. Segundo ele, há em Rio Preto cerca de 50 casas de candomblé que deveriam unir-se para se posicionar contra o projeto de Carlão. A mãe de santo Rose, da mesma casa, também criticou a proposta. "Acho que o candomblé deveria ser mais respeitado. Quando acontece um sacrifício, a carne dos animais é assada e comida", afirmou a mãe de santo.
Carlão não foi localizado ontem para comentar a repercussão de seu projeto. O mestre obashanan William de Ayrá, que tem um terreiro de umbanda em Rio Preto, o Templo da Estrela Verde, Casa do Caboclo Aymoré, afirma que não costuma praticar sacrifício de animais, mas que a prática não é ilegal. "Não praticamos o sacrifício no meu terreiro, mas respeito quem faz, se são pessoas sérias." Ele criticou o projeto. "Se o projeto é de um evangélico, poderia fazer uma lei para proibir igrejas evangélicas de fazer barulho à noite. Parece uma caça às bruxas", afirmou.
No Sul
No Rio Grande do Sul proposta semelhante também provoca polêmica. Diante das várias discussões sobre o tema, a deputada Regina Becker (PDT) defendeu plebiscito sobre o sacrifício de animais.

